O Martim vive numa aldeia onde toda a gente se conhece. Quando sai à rua para passear o cão Oddy, chega a ficar cansado de tanto acenar e dizer “olá!” às pessoas com quem se cruza. Vive na aldeia desde que nasceu, e às vezes põe-se a imaginar como seria viver num sítio maior, por exemplo, numa cidade: “Quantas pessoas há numa cidade? Como é que seria quando fosse passear o Oddy? Ia ver pessoas que nunca vi antes na vida! Como é que eu ia saber o nome dessas pessoas? E como é que elas iam aprender o meu nome?” Enquanto pensava nestas coisas em voz alta, à janela do seu quarto, o Oddy olhava para ele com ar de quem já queria passear. Do outro lado da rua, a vizinha acenou-lhe do quintal e disse “Bom dia, Martim!”. O Martim não a conseguiu ouvir, pois a vizinha estava longe, mas adivinhou o cumprimento e respondeu, acenando de volta: ー Bom dia!. De repente, o Martim franziu o sobrolho e disse surpreendido: ー Oddy, eu digo olá a esta vizinha todos os dias, ...
"‘Só sei que nada sei’, professor”, escreveu o aluno como resposta à questão de sua prova de Filosofia. Quis dar uma de esperto para cima do mestre. Pudera. Muitos docentes - e talvez este do meu exemplo - ensinam a frase de modo equivocado. É comum ouvir “Foi Sócrates quem disse isso, e o seu significado é algo como ‘quanto mais eu sei, mais eu sei que não sei’, ‘ninguém sabe de nada nessa vida’, ou até ‘ninguém pode afirmar nada sobre nada com certeza’. Todas essas teses soam inteligentes. Com a legitimação de que provêm de Sócrates, um dos pais fundadores da Filosofia ocidental, então… Aí é que soam sábias mesmo. Na prática, contudo, mostram-se ou clichés sem significado, ou simplesmente falsidades. É preciso, então, investigar a origem deste mito – Sócrates nunca disse “só sei que nada sei”. Como sabemos, Sócrates nada escreveu. Sabemos do personagem mediante três fontes principais contemporâneas suas: Platão, o filósofo; Xenofonte, o soldado; Aristófanes, o comed...